quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Festa de Natal

É tempo de Natal...

Fogos que riscam incessantemente as dimensões do céu, num bombardeio de som e de luz.
Grandes banquetes regados a champanhes e vinhos, ornamentados por frutas e, na maioria das vezes, por discursos retóricos, tudo em contraposição a um hemisfério cinzento de pobreza e de degradação humana.
Perus são destroçados e degustados em utensílios de porcelana seguindo as refinadas técnicas de etiqueta, em toalhas cuidadosamente bordadas, num mesmo tempo em que crianças, num limiar de fome e de miséria, procuram justificar suas existências através da crença no futuro.
Ao menos, a esperança ainda não lhes foi roubada, por mais que fatigada no calabouço hostil da consciência.
No mesmo instante em que se anuncia a ressurreição de cristo, convalescem injustiças mil, num ciclo paradoxal cada vez mais latente e perene.
As injustiças saltam aos olhos com relativa veemência. E o que é pior, acostumamo-nos a absorvê-las com relativa facilidade e comodidade, à medida que passaram a integrar o universo insosso da previsibilidade.
Um brinde sincero à hipocrisia e aos nossos desajustes mais íntimos...
Ao mesmo tempo, a indústria do capital arregimenta novos mercados e intensifica o processo de exploração, com sucessivos recordes de consumo.
Não que não deva ser assim...
Ocorre, pois, que nos tornamos reféns de uma sociedade de consumo, genuinamente estratificada, na qual o conceito de felicidade encontra exata correlação com as noções de posse e de propriedade.
Se por um lado, mister se faz reconhecer que o trabalho dignifica no sentido em que estabelece uma diretriz de evolução e de desenvolvimento pessoal, por outro lado é que preciso que, dele, não nos tornemos reféns a ponto de abandonar ideologias ou mesmo ultrajar princípios.
Os solavancos da vida são convidativos instrumentos de reflexão e de desenvolvimento. Porém, muitos deles migram no ralo fétido da indiferença enquanto permanecemos anestesiados, na vastidão de nosso egocentrismo, em busca de sucessivos porquês...
Nossas interpretações e atuações no palco teatral da vida, à mingua, mesmo, de um agir mais espontâneo, são construídas e moldadas quase sempre em função do comportamento dos nossos semelhantes. Na retaguardada da nossa vaidade e da nossa insegurança, aprendemos a desconfiar e julgar as pessoas com leviandade e insensatez.
Tudo parece banal e disforme.
Porque não buscar um ano novo diferente e singular???
Será que crescemos suficientemente neste ano. Até que ponto aproveitamos as oportunidades que surgiram com decurso do tempo...
Estamos realmente preparados para nos tornarmos melhores????

Autor: João Luccas Thabet Venturine

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

As Harmonias de Werckmeister (2000)

Um filme de Béla Tarr

Em “As Harmonias de Werckmeister” (2000) o lendário diretor húngaro Béla Tarr permanece com seu estilo único, preferindo o uso do preto e branco, planos-seqüências e uma trilha sonora hipnotizante. Mas se para muitos sua obra anterior “Satantango” (1994), uma saga com mais de sete horas e meia, pareceu monótona, em “As Harmonias de Werckmeister” ficarão pasmos com uma história tão enigmática.

János Valuska, um simples carteiro apaixonado por astronomia, vê sua cidade sofrer uma revolta depois da chegada de um circo e suas atrações: uma baleia gigante e um príncipe medonho com seus seguidores, pessoas simples das cidades vizinhas que ficaram seduzidas pelo seu discurso niilista contra a burguesia local. Quando deixa de fazer parte do circo, o príncipe coloca seu plano anarquista para funcionar, destruindo toda cidade.

Todos são afetados, inclusive Eszter, o tio de János, um teórico e crítico musical que afirma ser os estudos do organista e também teórico Andreas Werckmeister (1645-1706), que revolucionou a música dividindo a oitava em doze intervalos sonoros perfeitamente idênticos, uma ofensa aos deuses, podendo assim mudar o percurso da humanidade.

Assim como seus filmes anteriores, como o já citado “Satantango” (1994), “Condenação” (1989) e o novo “The Man from London” (2007), nomeado à Palma de Ouro no festival de Cannes desse ano, “As Harmonias de Werckmeister” (2000) também foi escrito a partir de um romance do escritor húngaro László Krasznahorkai, chamado "The Melancholy of Resistance". Ao contrário das outras obras de Béla Tarr, o filme em questão apresenta uma atmosfera lynchiana com um tom apocalíptico, considerado por muitos como sua obra prima. Não só por isso, mas também pela construção minuciosa dos planos, pela sinceridade cinematográfica, pela fotografia e trilha sonora estonteantes, que parecem levar o espectador para o mesmo mundo das personagens.

Com tudo isso se percebe que o filme não é fácil, tanto pela misteriosa história quanto pelos recursos usados por Tarr. Os longos planos podem parecer enfadonhos para muitos, mas contêm uma beleza poética única, um prato cheio para os fãs do mestre Andrei Tarkovski.

Assim sendo, assistir a um filme de Béla Tarr, um diretor pouco conhecido no Brasil, é uma experiência única que pode mudar não só nossa visão sobre cinema, mas sim sobre nossas vidas. Afinal, para os amantes da sétima arte, não existe um limiar entre tais coisas.


Por: Anderson M. M.

anderson.mm@hotmail.com



Dia 09/01 20:30 - O Evangelho Segundo São Mateus (1964)

Direção: Pier Paolo Pasolini - País: Itália - Gênero: Drama - Duração: 137 min
Classificação: Livre

Sinopse:
Ao contar a vida de Cristo no registro híbrido entre documentário e ficção, a partir dos escritos do discípulo Mateus, Pasolini realizou uma de suas maiores obras-primas. “O Evangelho Segundo São Mateus” obteve amplo reconhecimento do público e da crítica, inclusive católica, apesar de sua conotação marxista, e recebeu 11 prêmios em 1964, cinco deles no festival de Veneza.

Dia 16/01 20:30 - Cidade dos Sonhos (2001)


Direção: David Lynch - País: EUA - Gênero: Drama / Suspense - Duração: 145 min
Classificação: 13 Anos

Sinopse:
Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.

Assista o trailler:



Dia 23/01 20:30 As Harmonias de Werckmeister (2000)

Direção: Béla Tarr - País: Hungria - Gênero: Drama - Duração: 145 min
Classificação: Livre

Sinopse:
A chegada de um circo com sua estranha atração: uma baleia gigante e um príncipe medonho, perturba a ordem de uma pequena cidade no interior da Hungria. As conexões humanas se embaralham, os personagens ambiciosos da história percebem que podem levar vantagens da situação, enquanto que as pessoas irremediavelmente condenadas à passividade caem numa incerteza maior ainda. A crescente tensão explode pela figura do príncipe; sua mera aparição é bastante para soltar as emoções destrutivas. O apocalipse que se segue não poupa nada.

Dia 30/01 20:30 Nossa Música (2004)

Direção: Jean-Luc Godard - País: França - Gênero: Drama - Duração: 80 min
Classificação: Livre

Sinopse:
Dividido da mesma forma que "A divina comédia", de Dante: Inferno; Purgatório e Paraíso. No Inferno, temos imagens de guerras, conflitos, campos de concentração; quatro frases (no estilo poético e filosófico de Godard dos últimos tempos) e uma trilha sonora de encher os ouvidos. No Purgatório, a Sarajevo de hoje, personagens reais e imaginárias, uma das reais, inclusive,
o próprio Godard dando uma palestra recortada, indo de "campo e contra campo" até frases de Racine. No Paraíso, finalmente, uma jovem, que estava no Purgatório, está agora numa ilha cercada por soldados. Senta-se à beira do mar e encontra paz.