quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O cidadão norte-americano

Ralph Linton, antropólogo

"O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos "mocassins" que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.

Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.

De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.

Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano."

LINTON, Ralph. O homem: Uma introdução à antropologia. 3ed., São Paulo, Livraria Martins Editora, 1959

domingo, 11 de novembro de 2007

Sinopses dos filmes de Novembro/Dezembro

Dia 14/11 20:30h - Quanto vale ou é por quilo?
Direção: Sérgio Bianchi.
Cor
Dur. 104min.
Drama
Classificação: 13 anos


Sinopse

O diretor Sérgio Bianchi (Cronicamente Inviável) leva às telas uma analogia entre o comércio de escravos no século XVII e os dias atuais. Com Lázaro Ramos, Herson Capri, Caco Ciocler, Leona Cavalli, Zezé Motta e Joana Fomm.

Assista um trecho do filme



Dia 21/11 20:30h - Kanal

Direção: Andrzej Wajda
PB.
Dur. 95min.
Drama/guerra
Classificação:13 anos


Sinopse

Kanal conta a história de um grupo de soldados polacos que lutam para expulsar os alemães de Varsóvia, no final da Segunda Guerra.
O grupo de combatentes é obrigado a fugir para dentro dos esgotos na tentativa de sobreviver à batalha, à escuridão e à sujeira que os atordoam. Kanal é baseado numa história verídica vivida por Jerzy Stefan Stawinski.
O filme ganhou uma série de prêmios importantes quando foi lançado e deu visibilidade a Wajda. O principal prêmio foi o Especial do Júri do Festival do Cannes.

Dia 28/11 20:30h - A Guerra do Fogo
Direção: Jean-Jacques Annaud .
Cor.
Dur. 100min.
Ficção
Classificação: 16 anos

Sinopse

A reconstituição da pré-história, tendo como eixo a descoberta do fogo. A saga de uma tribo e seu líder, Naoh, que tenta recuperar o precioso fogo recém-descoberto e já roubado. Através dos pântanos e da neve, Naoh encontra três outras tribos, cada umanum estági diferente de evolução, caminhando para a atual civilização em que vivemos.
Assista um trecho do filme



Dia 05/12 20:30h- Machuca
Direção: Andrés Wood
Cor
Dur. 120min.
Drama.
Classificação: 14 anos

Sinopse

Durante o governo de Salvador Allende, dois garotos de classes sociais diferentes criam uma forte amizade.O filme retrata a sociedade chilena antes do golpe de Augusto Pinochet, os conflitos, intolerância e preconceito da classe média.

A necessidade constante da integração social

*Por João Luccas Thabet

É evidente que as injustiças sociais remontam a séculos de exploração e de absoluta extratificação social. As classes, agrupadas segundo um processo sistemático de consolidação dos interesses vis, dão o tom dos costumes e engessam quaisquer resquícios de idealismo. Enfim, os ideais, muitas vezes, já nascem mortos e acabam sepultados no solo fértil da tão sonhada pátria amada, contabilizando estatísticas e fraquezas no inconsciente coletivo...
Porém, nem tudo está perdido. Observamos avanços significativos nos mais variados segmentos ao longo dos anos, das décadas, enfim...
Valores foram incorpados no inconsciente coletivo, de tal sorte que passamos a observar e compor uma sociedade mais crítica, mais organizada e acima de tudo, mais sensível...
Essas transformações todas podem ser observadas nas mais diferentes matizes: seja através da literatura, seja através da música, e porque não através do cinema????
É esse o objetivo do Cine Clube e, com toda certeza, do seu idealizador Newton Bennetti...
A busca constante da oportunidade de expressão, lastreada num resgate histórico-valorativo.
É preciso que preparemos nossa alma, a partir do repúdio à proliferação da miséria humana, que não é representada, tão somente, pela falta de recursos financeiros ou coisa que o valha...
É muito maior do que isso...
É preciso operar o despertar da compaixão; o tão idealizado amor ao próximo, tão longínquo aos nossos olhos e tão avesso às nossas vidas...
Nosso Cine Clube, inobstante as limitações que lhe são afetas, representa, pois, uma importante ferramenta de expressão, na medida que nos remete ao passado, preparando-nos para o presente e para o futuro. E o que é melhor, não precisamos de métodos experimentais... Basta legitimarmos o positivo exercício do nosso livre arbítrio nesse súbito mergulho histórico, através da captação de valores que inspiraram gerações e gerações e, com toda certeza, seremos cidadãos melhores...